Lia no infinitivo - Vitor Butkus

Revista de Arte Contemporânea Panorama Crítico - Ensaios | ed. Nº03 - Out|Nov2009

Lia no infinitivo

Vitor Butkus

A análise de um objeto artístico pode se valer de procedimentos drásticos, mesmo cruéis. Um bom começo, para amenizar a situação, é a descrição da obra. Por aí, se elabora a inocência do crítico e do leitor, perante o ato criminoso cuja responsabilidade só se poderá procurar, doravante, na figura do artista como autor.

A exposição Pele de boneca, da artista Lia Menna Barreto, ocupa o atelier Subterrânea, em Porto Alegre. A parte dianteira desse atelier coletivo mais uma vez assume as vezes de um espaço expositivo. O que vemos, logo ao entrar, são farrapos de plástico colorido, pendendo do alto até o chão, cada um deles amarrado num único fio horizontal. O fio, que sustenta as grandes tiras plásticas (moles e retorcidas), começa em uma das paredes, termina na parede oposta. Ele é mais alto que o mais alto de nós, e é metálico. As tiras não vão todas até o chão; mas são suficientes para dividir aquele espaço em dois: o conjunto das verticais (moles e retorcidas) formaria um plano, quase uma parede. E as tiras são (eram) cabeças de bonecas, sobre as quais se executou um corte em espiral. Moles e retorcidas.

Descrito o objeto, ficam explicitadas as provas do crime. Daí em diante, resta esboçar a silhueta do autor, compor suas feições, adivinhar seu caráter, interpretar seus motivos. Resta fazer a leitura, dar a ver ou apenas sugerir o que está por trás de tudo isso.

A descrição continua, agora já mais amparada num plano espaço-imaginário, mais corporificada numa plataforma: a experiência. Dou um passo a mais na direção desse objeto, e a quase-parede se abre e me deixa passar: me engole. Por trás da pele que para mim se oferece para ver, não há nada: e ali estou.


Foto 1: Pele de boneca

Muitas análises de obras contemporâneas começam na descrição, e acabam ali. A obra resta como o resultado de um ato. Sua descrição ganha tons de romance policial. O ato, ou o gesto do artista, permanece nas entrelinhas: lugar reservado aos efeitos da obra sobre o campo problemático que ela instaura, desperta ou suscita. Pele de boneca traz essa qualidade, tão rara hoje em dia, de ser a prova de um crime compartilhado entre o réu e a vítima. O procedimento da artista é cruel e drástico. Mas o seu rosto e a sua pessoa não se apresentam ao julgamento. Sobram somente as provas (a obra) e os efeitos menos-que-sensíveis de uma descrição, de um testemunho.

Felicidade da análise: a obra coincide com sua descrição. Mas também convoca, num mesmo movimento, as entrelinhas desse texto sem autor pelo qual ela me punge. Não sobra mais espaço à interpretação num plano em que o veredicto recai sobre o próprio juiz. Seria bobo começar uma lista dos efeitos dessa experiência, das saudades que ela recorta, dos destroços que se lhe associam. Talvez seja mais interessante, aqui, procurar habitar, por um instante a mais, esse momento de virada em que o gesto da artista se inscreve na pele daquele que lê as suas marcas, fazendo operar algo da ordem do contágio, da transmissão.

Lia vem trabalhando a incorporação de objetos cotidianos em suas obras já há algum tempo. Dessa vez, o processo começou por um pedido de doação de bonecas plásticas. Imagina-se o santo desprendimento desses doadores, cúmplices que foram da planificação generalizada de seus sonhos de infância. O ato é simples, cabe em poucas palavras, e não perdoa: as cabeças se desenvolvem, crescem em comprimento e são suspensas num único eixo horizontal.

O gesto transparece, ainda mais que os fundos da galeria. O ato repete um padrão que estraçalha a semelhança das cabeças. Sua desfiguração se paga com a ascensão de uma nova figura: tênue, incorpórea, puramente verbal. É assim que o gesto surge, inocente como qualquer recém-nascido. A consistência da obra, a natureza do crime, acontecem do lado de cá, ocupando o lugar que caberia ao detetive. A narração desenrola a pura visualidade: o corte está feito.

Ainda: sim, a obra é essa, o gesto foi esse e foi Lia que fez. A descrição já leva bastante longe a análise. Meu corpo já estava lá: desde o primeiro corte, é ele que sente. O procedimento elabora uma ferida, desenvolvendo suas dores. O que liga a obra de Lia a outras produções contemporâneas talvez não seja só o conteúdo temático de seus efeitos psicológicos, mas, mais essencialmente, a torção entre gesto e resultado, entre ato e obra. Impossível não lembrar, aqui, de Lygia Clark em Caminhando, obra que deve ocupar, junto com outras, uma posição inaugural na história da arte contemporânea brasileira.


Foto 2: Lygia caminhando

Ao incidir sobre a matéria que incide (objeto sacralizado na memória coletiva), Pele de boneca inscreve no gesto a sua mais profunda análise. A obra não serve de interface para um autor ausente se manifestar ante o espectador. Ela se elabora nos pequenos abismos que ligam o procedimento ao resultado. Esse resultado, que pende, cadavérico, no espaço expositivo, erige-se numa cortina: suspense. Ele encaminha para um corte temporal, aponta para um passado suposto, inaugura um recorte entre a percepção e a memória.

Como num conto de horror, a tensão se instaura enquanto a matéria se dá a ler, desdobrando um presente insistente em linhas de passado e futuro. Todas as crianças – e nenhuma – ficaram feridas nesse processo. Lia continua brincando de boneca. O infinitivo do gesto permanece em suspenso. Ela só quis ensinar a brincar, como Lygia, recortando a matéria, inscrevendo ali as margens de um futuro e de um passado. O marginal está solto, fica mais uma vez postergado o fim da história.

Porto Alegre, 23 de março de 2009.

Sobre o autor
Artista visual. Graduando em Artes Plásticas, habilitação em História, Teoria e Crítica, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Integrante do grupo transdisciplinar Corpo, Arte, Clínica.